Dizer "te amo" quer dizer biquinho
Um grito é sempre quer dizer
Dizer não adianta quando apertar...
"Ajude-me" "socorro" quando par de óculos é os olhos
Embaçada, um quer colo um choro
Um quer dizer fechar, vindo.
Suspiro está quero um
Quer bem sorriso obrigada
Abrir, esfregar um visão
Blog originalmente criado para relatar as pérolas que minhas duas flores lançavam no ar e que com tempo virou o meu cantinho de devaneios. Sinta-se abraçado!
Ciclo
O que antes era vermelho
Vivo
Intenso
Banhado pela luz do sol
Quente
Brilhante
Aos poucos se torna opaca
Sem viço
Sem cor
O que antes apontava para o alto
Altivo
Confiante
Mirando as estrelas
Vibrante
Radiante
Aos poucos se curva
Sem forças
Sem folhas
Rendendo-se a força invisível
Fraco
Findo
Perde-se entre o que foi um dia
E a esperança de um recomeço
Rendendo-se
Caindo
Sentindo
O fim
Vivo
Intenso
Banhado pela luz do sol
Quente
Brilhante
Aos poucos se torna opaca
Sem viço
Sem cor
O que antes apontava para o alto
Altivo
Confiante
Mirando as estrelas
Vibrante
Radiante
Aos poucos se curva
Sem forças
Sem folhas
Rendendo-se a força invisível
Fraco
Findo
Perde-se entre o que foi um dia
E a esperança de um recomeço
Rendendo-se
Caindo
Sentindo
O fim
Luta
Ela estava agachada, o joelho
esquerdo tocando o chão de terra, assim como a mão direita, os cabelos longos
formando uma cortina negra sobre seu rosto, respiração acelerada. Olhou para o
alto, pingos espessos, negros como sua roupa e seu estado de espírito,
começaram a cair sobre seu rosto, como um lamento vindo dos céus. Ao seu redor,
gritos de horror, medo e bravura daqueles que ainda lutavam. Ecoavam em sua
memória os muitos lamentos que ouvira até então, daqueles que conhecera, que
perdera e viria a perder. A visão de um futuro negro pairava sobre ela, como
uma aura sugando toda sua vontade. O cansaço que ela sentia não era
físico, há muito não mais sentia seu corpo reclamar, mas em sua alma marcada
pela perda ao longo do tempo de sua existência. Virou-se e observou o horizonte
distante, que começava a anunciar o amanhecer de um novo dia, ponderou a
possibilidade de finalmente deixar tudo para trás e esquecer os gritos, as
perdas, os incessantes lamentos das pessoas que contavam com ela. Viu no
horizonte a possibilidade de um recomeço, livre da dor que carregava dentro do
coração, ah como seria reconfortante se livrar de todo um passado de
infortúnios. Deu um pequeno passo, fechou os olhos, abriu os braços e deixou-se
sentir os pingos chuva lavar-lhe o rosto, o corpo e o coração ferido. E com um
breve suspiro jogou-se para trás, num mergulho escuro para o fundo do abismo
onde a luta pela vida continuava. As forças? Encontraria dentro de si, trancada
a sete chaves no amago de seu ser e daqueles que confiavam nela.
Inquietude
Carrego em mim uma inquietude... bem, não sei dizer se é realmente isso, mas é como se algo ficasse embolado, embotado, embutido dentro mim. Daqueles ímpetos em que você corre, grita, pula, gasta toda a sua energia olhando para o céu à procura de uma resposta, mas ela não vem, assim como o grito, o pulo, os gestos abruptos.... está tudo confinado aqui dentro, bem aqui... onde ninguém vê, nem sente, tampouco ouve, mas eu... ah eu ouço esse grito, abafado, desesperado, buscando uma forma de sair, mesmo estando encurralado entre a vontade e o medo.
Como nas palavras da irmã F, brilhantemente criada por Hilda Hilst.
- Olhei o pássaro que pousou na janela. Tive vontade de ser!
Hourglass
Queria que você me olhasse daquela forma que só você é capaz, me desvendando sem necessidade de explicações. Porque nós somos assim, não acha?! Uma sintonia inacreditável e invejável.
É, invejável! Já parou para pensar em quantas pessoas queriam ser como nós? Que sabem o que outro está sentindo sem ter que falar nada, cuja energia paira sobre nossos corpos como uma carícia do vento vindo do mar, como a onda que revolve a areia da praia, numa carícia sem fim - ás vezes delicada e às vezes feroz como uma ressaca, batendo, soprando, esburacando a fina camada de areia, mas que depois de tanta zanga, se acalma, se recompõe e volta às carícias, suaves, ternas, como o vento que balança uma flor levando seu perfume pelo ar.
E se somos assim, feitos um para o outro, me explica por que não vejo mais seu sorriso, por que não sinto mais seu perfume, nem seu calor ou seu olhar sobre meu corpo?
Como a areia que cai de uma ampulheta, nosso tempo se foi? E se burlássemos o tempo e virássemos a ampulheta a fim de termos um pouco mais? Tempo para relembrar o frisson que nosso toque provoca, para sentir o hálito morno do perdão. Peço perdão por te amar tanto, por querer te ter do meu lado a todo momento, por precisar de você assim como preciso da água que hidrata meu corpo. Gostaria apenas que você estendesse sua mão e me tirasse dessa escuridão que se abateu sobre mim, como uma camada grossa e pegajosa que me impede de sorrir, pois só você é capaz disso.
imagem: www.galeriaaberta.com
O abraço
A sua frente o caminho de areia a
convidava, passos impressos nos grãos espalhados por todos os lados lhe
mostrava que muitas pessoas haviam passado por ali. Naquela hora da manhã, onde
o sol acabara de nascer seguido dos cantos dos pássaros em sua homenagem ela
parou, virou seu rosto para cima, observou as nuvens que pairavam sobre ela e
fechou seu olhos. Os pés descalços em contato com a Mãe Terra, em suas mãos as
sandálias que acabara de tirar e em seu corpo um biquíni azul coberto por um
vestido branco de algodão. Os cabelos longos soltos balançando ao vento.
Segundos,
minutos, horas se passaram, não importava contar o tempo em que ficara ali
sentindo o calor do sol a acariciar seu rosto, tampouco contar as vezes que
sentiu o vento levantar seus cabelos.
Abriu
os olhos e caminhou decidida, a brisa do mar trazia um gosto salgado para os
seus lábios entreabertos. As ondas batendo contra a areia cantarolavam para
ela, como uma evocação ao reencontro.
Na
praia apenas alguns pescadores puxavam suas canoas após terem retornado do mar
com sua pescaria, troncos rolavam por baixo de suas pequenas fontes de sustento
e lentamente os levavam para um local seguro.
Sentou-se,
cruzou as pernas e ficou observando o movimento constante da água, tirou o
vestido branco e fez uma prece silenciosa. Agradeceu por mais um dia de vida,
por possuir a visão e
poder ver plenamente o esplendor da natureza a sua frente,
por poder tocar a areia fina sob seu corpo, por sentir o abraço do aroma da
maresia e o gosto salgado do mar e por poder ouvir a cantiga carinhosa que lhe
chegava aos ouvidos. Agradeceu por ter a oportunidade de retornar a esse lugar,
apesar de ter ciência de tudo que tivera que passar para conseguir finalmente
chegar ao ponto em que se achava.
O
mesmo mar, a mesma natureza que hoje lhe dava as boas vindas, havia tirado tudo
o que ela tinha de mais precioso na vida. Como uma borracha que apaga uma letra
em um caderno ela viu sua vida ser engolida por uma camada densa e grudenta e da qual ela
lutou com todas as forças para se livrar, mas quanto mais força ela fazia,
maior era seu abraço escuro.
Mas
hoje, depois de muita luta, ela havia vencido a escuridão. Decidira caminhar.
Um passo de cada vez por um caminho sinuoso, solitário, dolorido, cheio de
obstáculos, o que a
obrigou a desviar muitas vezes, mas não hoje... hoje ela
estava ali de corpo e alma.
Levantou
e correu de braços abertos, sentiu o mar lhe tocar os pés e não parou,
continuou correndo, as ondas batiam em suas pernas espalhando águas para todos
os lados e ela continuou até o ponto em que a força das águas sobre as suas
pernas a impendiam de ir mais rápido. Então respirou fundo, segurou o ar em
seus pulmões, lançou seus braços para frente e mergulhou. Envolta pelo mar soltou
todo o ar que havia inspirado e gritou.
- Pai, eu te amo. Ontem, hoje e
sempre.
Voltou
para a superfície, abriu os braços e ficou ali. Segundos, minutos, horas, não
importava. O que ela queria era ficar ali, sentindo-se abraçada e recebendo o
carinho daquele que tinha sido tirado de sua vida, mas que guiara seus passos
até ali.
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