Amor em pó


- Moço quanto está o quilo?
- Quilo do quê?
- De amor em pó.
- Ih, está em falta minha senhora...

Se o amor pudesse ser medido em metros, peso, dúzia, etc... seria fácil. Poderíamos comprar, presentear alguém ou até emprestar por tempo determinado... “Você me empresta aquele saquinho de amor que você comprou? Semana que vem eu devolvo!” e se a pessoa não devolvesse, poderíamos comprar mais um pouco.
Já imaginou dar uma caixinha de amor a alguém? Aquela pessoa que está precisando e muitas vezes nem percebe que o que está faltando em sua vida é uma pitada de amor. Amor próprio, daqueles concentrados – tipo produto de limpeza, que se dilui uma tampinha em um balde cheio de água – e que ao tocar, abraçar, beijar e sorrir, se espalha pelo ar como uma leve brisa cor de violeta, correndo em ondas e envolvendo todos ao seu redor.

- Acho melhor a senhora procurar na banca do Seu Romeu, lá ele tinha amor em metros. Dá mais trabalho para carregar, custa mais caro, mas vale a pena. Amor é amor, né?!

Sombras


Fiquei aqui perdida em pensamentos - acho que é o único lugar onde me sinto inteira e sem medo do que está adiante - e então me veio à memória uma conversa que tivemos, em uma época em que uma troca de olhares significava muito. Não, significava tudo!

Eu respirando você, meu rosto encostado em seu peito, seu cheiro entrando por minhas narinas, cheiro de terra e doce de leite, consegue perceber? E então quis saber como você conseguia me aturar, uma pessoa tão cheia de defeitos, vulnerável, volátil, mal humorada, que fala e ri alto demais e então você respondeu, me olhando nos olhos:

- Por que você me faz querer ser uma pessoa melhor e eu te amo exatamente por você ser quem você é!

Sinto vontade de saber então por que você fugiu de mim, será que perdi o brilho que te tirava da escuridão, ou finalmente meus defeitos suplantaram minhas qualidades?

De qualquer forma, não tenho para onde ir. Onde quer que eu vá ou o que quer que eu faça, será apenas uma fração do que eu fui um dia, pois desde o momento em que você se foi, parte de mim se trancou nas sombras.

Fim


Eu queria acreditar que tudo aquilo era passageiro, ou melhor, apenas um pesadelo e no instante em que eu acordasse, suando, tremendo e com a respiração acelerada eu simplesmente olharia para o lado e veria você dormindo tranquilamente, me lembrando que era apenas um sonho ruim, mas não. 

A verdade estava ali diante de mim e nada parecia mudar sua decisão. Meus olhos mareados, minhas súplicas... nada.

Você, inflexível, dirigiu-se até a porta e se foi, sem nem mesmo olhar uma última vez para trás. Talvez uma última olhada fizesse você desistir daquela decisão, mas não.

Sem mais palavras eu te vi saindo e levando um pedaço de mim, não – levando tudo o que eu tinha - porque você era meu tudo, meu eixo, minha razão.

Eu queria gritar, abri a boca e um eco silencioso permaneceu no ar.

Eu queria correr atrás de você, mas meus pés estavam pregados ao chão.

Eu queria que você visse o meu desespero.... mas não.

Você se foi.

O que sobrou de mim ficou, um amontoado de sentimentos jogado no canto da sala. 

Esperando....

Brasil, mostra a tua cara!


Estou cansada de ver no noticiário que pessoas estão morrendo na mão de bandidos, pessoas sem o mínimo de escrúpulos e fico tentando encontrar uma explicação para isso.
 Aqui, as pessoas riem mais, são mais solidárias, mais felizes, não tem terríveis desastres naturais, nem clima extremo – não é o que dizem? - mas o que então está acontecendo com nossa sociedade?
Seria culpa dos pais, que tem que ficar fora de casa durante todo o dia e não tem tempo para educar devidamente seus filhos? 
Ou seria dos pais negligentes que atribuem a responsabilidade de educar seus filhos aos professores? 
Ou dos professores que apesar de receberem seus salários ínfimos, buscam todos os dias levar conhecimento às pequenas cabeças pensantes? 
Ou da educação continuada, que beneficia os preguiçosos e tira o ânimo dos que se empenham? 
Ou seria da lei que diz que o menor que mata, é um menor infrator. Essa mesma lei que é incapaz de impedir que dois irmãos sejam assassinados por quem deveria amá-los e protegê-los e serem descartados em sacos de lixo? 
Seria da polícia, que não tem a capacidade - ou a vontade - de solucionar a maioria dos crimes cometidos? 
Seria talvez dos eleitores, que sempre votam nos mesmos, apesar de reclamarem que nada muda, nunca? 
Seria então das pessoas dispostas a fechar os olhos, em troco de um montante em dinheiro? Seria a falta de amor ao próximo? 
Ou o amor em excesso, que cega uma mãe e não lhe permite impor limites aos seus filhos? Ou seria o extrema desigualdade social? 
Não, acho que a culpa é minha, que ao invés de estar sentada na sala assistindo a sessão da tarde, estou aqui escrevendo esse monte de asneiras. É... com certeza é isso!!

A casa amarela



Era quase um ritual. Prendia o cabelo, colocava suas sandálias, pegava sua sacola, a carteira e saía. Trancava a porta, o portão e caminhava pela rua.


Ao chegar à padaria:

- Dois pãezinhos, por favor.

Ela era sozinha, mas sempre comprava dois pãezinhos para o caso de aparecer alguém sem avisar. O armário bem o sabia, ninguém aparecia e os pães se acumulavam.

Para voltar, fazia outro caminho, mais longo para se exercitar um pouquinho.

No caminho tinha uma casa, “a casa amarela”, era assim que ela a chamava. Havia algum tempo que estava vazia e ela se entristecia. Lembrava-se perfeitamente do pequeno jardim, com lindos lírios amarelos, da janela pintada de azul e da antiga cadeira também pintada de azul na pequena varanda e sentado nela, o Sr. Júlio. Um velhinho muito simpático que ficava observando o tempo passar e quando a via a cumprimentava com um aceno e um grande sorriso no rosto.

Nunca conversavam, só acenavam um para o outro, mas esse era o melhor momento da tarde.

Agora, a casa estava vazia. As flores secaram com a falta de cuidados e a cadeira já não estava mais lá. E o aceno... ah o aceno.... o sorriso sincero... ah como fazia falta, e ela sabia que ao virar a esquina ela olharia para a casa e uma pontada de tristeza se apoderaria de seu coração. Mesmo sentido falta do sorriso largo, ela fazia o mesmo trajeto todos os dias, ela devia isso a ele.

Dobrou a esquina decidida e não olhar para a casa, já era tempo de se desvencilhar do passado. A passos largos passou em frente a casa sem virar o rosto, mas algo chamou-lhe a atenção. Um objeto branco vinha em sua direção. Ainda sem querer se virar para ver do que se tratava, foi atingida, perdeu um pouco o equilíbrio e quase se estatelou no chão.

Ainda sem entender o que tinha acontecido, olhou para a casa e avistou um menino correndo.

- Minha bola, minha bola....

Ah... uma bola. Tinha sido atingida por uma bola, que rolou e parou no meio-fio, entre a calçada e o pneu de um caminhão, que até então ela não tinha percebido ali, tal era sua obstinação em não olhar para a casa que não reparou em nada. Não reparou na mobília espalhada pelo jardim, na bicicleta apoiada no portão, nem no menino que estava se divertindo.

Abaixou-se e pegou a bola. Entregou para o menino, que lhe retribuiu com um belo sorriso no rosto.

- Obrigado.

Ali, o sorriso ela reencontrou.

- De nada. Qual é o seu nome?

- Julinho.

Tempo

Ela passou em frente ao espelho, peça sem a qual ela viveria muito bem. Armário sim, cadeira sim, cama sim, mas o espelho era desnecessário. Não consegue mais reconhecer aquela que ele lhe mostra. A pele não tem mais o vigor de outrora, marcas profundas lhe rasgam a face. Os olhos são os mesmos, de um profundo azul, mas o brilho a muito se apagou. Se procurar bem lá no fundo, talvez ainda se encontre uma pequena faísca tentando se espalhar, mas já sem forças tenta apenas se manter ali, presente. Os cabelos.... esses o olhar evita encontrar, já “cañados” denunciam o tempo que se passou, ou que se perdeu.

É como um relógio que bate sem parar, tic, tac, tic, tac... Levando consigo toda qualquer vontade. Tirando todo o vigor que um dia tivera. Deixando apenas a vontade de voltar no tempo, mudar tudo, recomeçar. Mas ele não para nunca e a certeza avassaladora a faz se odiar e desviar o olhar de seu reflexo.

Por uns instantes, respira fundo e fecha os olhos. Vontade de voltar, sem coragem de recomeçar. Vontade de se atirar em terras desconhecidas, sem o entusiasmo de fazer as malas. Vontade de limpar a poeira profunda que o tempo deixou, sem coragem de começar.

Senta-se e olha pela janela. Lá fora o sol não brilha, os pássaros não cantam, as crianças não correm. Uma tempestade se anuncia e todos se recolhem, os primeiros pingos se precipitam contra sua janela, um, dois, três, muitos pingos e trovões.... ventania. Ela sabe que lá fora tudo vai passar, a chuva vai estiar, o vento vai parar de soprar, os pássaros voltarão a cantar e as crianças vão correr excitadas procurando as poças de lamas para brincar, a vida estará lá, se anunciando em cada ação, por menor que seja.

Mas tudo se passará do outro lado da vidraça.