Sobre ser



Um dia eu quis ser nuvem!
Colhi todo o material para a minha viagem.
Lata, vidro e sabão
Não me pergunte qual a lógica dessas escolhas
Ser nuvem requer, acima de tudo, estar com a cabeça e o coração em lugares absurdos.
Pelo menos, pelas pessoas que nunca cogitaram ser uma, claro!
Lá no alto
Linda
Leve
Fofa
Muito fofa
E açucarada

Peguei um copo qualquer, um canudo e um tantinho de água
Queria nuvem concentrada

Forte
Linda
Fofa
E duradoura

E assim como meu desejo louco
meu sonho durou pouco
Ruiu
Caiu por terra
E se misturou as pedras
Nuvem de chão não é nuvem
É borrão

Hoje não quero mais ser nuvem
Delírio insano de uma menina sonhadora
Quero ser vento
Estou parada
Em frente a calçada
Em uma noite enluarada
Esperando pela sua chegada

Nas mãos, nada.
Nos pés, onde estão??
No rosto um sorriso
E sem aviso
Ele passa

- Ei, espere!!
- O que foi?
- Quero ser como você.
- É?
- É!

Olhe para o chão
Seus pés
Onde estão?
Onde estão seus pés?
Você pode ser o que você quiser...

Bem vindo!

Entre, faça de conta que a casa é sua, deixe do lado de fora toda a tensão, as aflições e principalmente, o mau humor. Aqui dentro só o amor.
Esqueceu como faz? Simples. Coloque a mão na maçaneta, inspire o máximo de ar que puder, chacoalhe o esqueleto duas vezes, solte o ar - tinha me esquecido desse detalhe, sorry! - e sorria. Chacoalhe o corpo mais uma vez, e outra vez e mais uma última vez.
O café está pronto e quentinho. Fique a vontade, seu corpo, seu lar. Minha casa, meu ar!
Ah... e se quiser ficar descalço, vou adorar!

Peraltice

E de tempos em tempos
Chegamos a conclusão que ele é nosso único companheiro
Nas horas felizes, passa rápido como um sopro
Nas horas tristes, perde-se observando a dor alheia
Por falar em dor...
Quando se sente.... ela... a dor.... o tempo pára, suspenso no ar
E tudo que se sente é a vontade de escapar...
Dele...
Do tempo?
E o tempo que foi dado?
Não volta...
Jamais...
Como se estivesse sempre alguns passos adiante
Perde-o tentando voltar...
Buscar...
Sentir...
Fugir...
E o tempo?
Corre adoidado por aí!
Ah, esse tempo....
Menino travesso!

Cor(ação)

Dentro de mim bate um coração
Ah... É feito um trovão
Batendo sem noção
Entre o sim e o não
Como uma paixão
Que nunca foi em vão
Entre o sim e o não
Entre o sim....
Sim...

Chica

A sensação de te ter nas mãos é indescritível e apesar de não poder te tocar diretamente, o contentamento que se espalha em meu corpo é como uma brisa morna em um dia de inverno, um sonho recortado. O único toque de meus dedos fazem tudo se tornar possível e ao alcance dos olhos, dos lábios, da língua e dos dentes. O acúmulo líquido na sua extremidade úmida, o prazer do olfato, o brilho se espalhando sobre sua superfície macia, sensação de puro êxtase. Rápidas ou lentas, as investidas contra ti me levam a extremos de pura glória. E quando você escorre, gelado, melado, se esparramando, se esvaindo, a única coisa que me vem à mente é: "bon".



Cassiopeia



Corre pelo meu rosto rio de pedras multicoloridas, que se multiplicam no canto do meu olho e se derramam sem pedir permissão. Com minhas mãos em conchas as amparo antes que caiam no precipício entre o queixo e meu inflamado peito, formando um lago multifacetado e em cada faceta brilhante vejo o reflexo de um momento. Uns brilham tão intensamente, que me cegam por um instante, outros sugam a luz, remetendo-me ao ponto mais escuro de minha finita memória. Inalo o ar úmido a minha volta, como névoa condensada de arrependimentos e as lanço no espaço escuro entre o céu e o nada e tudo fica inimaginavelmente belo, como uma constelação que acaba de surgir na negra teia de uma vida.


Imagem: desconheço a fonte

Deriva

Queria abrir um caderno qualquer, desses que se leva para escola, espiral, pautado e onde se escreve sem parar, fórmulas matemáticas, trechos históricos de nosso país, análises sintáticas, química, física, geografia....
desses de dez matérias....
arrancar uma folha, uma única folha....
dobrar, dobrar novamente, e mais e mais, até que ele se transforme em um barquinho de papel,
barquinho de papel pautado...
e nele navegar por aí, nas profundezas cerúlea de seus olhos, sentindo a plácida correnteza levar a pequena, leve e frágil nau para o seu íntimo, balançando ao ritmo ininterrupto, suave e embriagante de uma brisa.
Brisa, vento, ventania....
Soprando para longe, para perto, para dentro da escuridão pontilhada de memórias, como um céu estrelado de uma noite feliz...
e a nau flutuando, a brisa balançando meus cabelos, me beijando a face e me lançando para o alto,
sempre para o alto,
para o infinito profundo de sua existência e me confundindo....
Fundindo...
misturando tudo e me transformando em céu e lua, em sol e água, em frio e calor, em riso e choro, eu e você,
ancorados para sempre
na luz escura do hálito gélido de um infinito beijo.