Peraltice

E de tempos em tempos
Chegamos a conclusão que ele é nosso único companheiro
Nas horas felizes, passa rápido como um sopro
Nas horas tristes, perde-se observando a dor alheia
Por falar em dor...
Quando se sente.... ela... a dor.... o tempo pára, suspenso no ar
E tudo que se sente é a vontade de escapar...
Dele...
Do tempo?
E o tempo que foi dado?
Não volta...
Jamais...
Como se estivesse sempre alguns passos adiante
Perde-o tentando voltar...
Buscar...
Sentir...
Fugir...
E o tempo?
Corre adoidado por aí!
Ah, esse tempo....
Menino travesso!

Cor(ação)

Dentro de mim bate um coração
Ah... É feito um trovão
Batendo sem noção
Entre o sim e o não
Como uma paixão
Que nunca foi em vão
Entre o sim e o não
Entre o sim....
Sim...

Chica

A sensação de te ter nas mãos é indescritível e apesar de não poder te tocar diretamente, o contentamento que se espalha em meu corpo é como uma brisa morna em um dia de inverno, um sonho recortado. O único toque de meus dedos fazem tudo se tornar possível e ao alcance dos olhos, dos lábios, da língua e dos dentes. O acúmulo líquido na sua extremidade úmida, o prazer do olfato, o brilho se espalhando sobre sua superfície macia, sensação de puro êxtase. Rápidas ou lentas, as investidas contra ti me levam a extremos de pura glória. E quando você escorre, gelado, melado, se esparramando, se esvaindo, a única coisa que me vem à mente é: "bon".



Cassiopeia



Corre pelo meu rosto rio de pedras multicoloridas, que se multiplicam no canto do meu olho e se derramam sem pedir permissão. Com minhas mãos em conchas as amparo antes que caiam no precipício entre o queixo e meu inflamado peito, formando um lago multifacetado e em cada faceta brilhante vejo o reflexo de um momento. Uns brilham tão intensamente, que me cegam por um instante, outros sugam a luz, remetendo-me ao ponto mais escuro de minha finita memória. Inalo o ar úmido a minha volta, como névoa condensada de arrependimentos e as lanço no espaço escuro entre o céu e o nada e tudo fica inimaginavelmente belo, como uma constelação que acaba de surgir na negra teia de uma vida.


Imagem: desconheço a fonte

Deriva

Queria abrir um caderno qualquer, desses que se leva para escola, espiral, pautado e onde se escreve sem parar, fórmulas matemáticas, trechos históricos de nosso país, análises sintáticas, química, física, geografia....
desses de dez matérias....
arrancar uma folha, uma única folha....
dobrar, dobrar novamente, e mais e mais, até que ele se transforme em um barquinho de papel,
barquinho de papel pautado...
e nele navegar por aí, nas profundezas cerúlea de seus olhos, sentindo a plácida correnteza levar a pequena, leve e frágil nau para o seu íntimo, balançando ao ritmo ininterrupto, suave e embriagante de uma brisa.
Brisa, vento, ventania....
Soprando para longe, para perto, para dentro da escuridão pontilhada de memórias, como um céu estrelado de uma noite feliz...
e a nau flutuando, a brisa balançando meus cabelos, me beijando a face e me lançando para o alto,
sempre para o alto,
para o infinito profundo de sua existência e me confundindo....
Fundindo...
misturando tudo e me transformando em céu e lua, em sol e água, em frio e calor, em riso e choro, eu e você,
ancorados para sempre
na luz escura do hálito gélido de um infinito beijo.

Interminável hora

Os braços se tocam
Os corpos se entrelaçam
As mão se acariciam
As bocas se buscam, se encontram e provam o sabor do encontro
Invasão cedida, concedida e recíproca
Mãos alucinadas, procuram incessantemente
Calor
Aproximação
Entrega
Os corpos tentam se fundir em apenas um.
Apenas um
Um
Tentativa vã
Um
Bocas suplicam
Um
Corações descompassados
Um
Distância
Um
Desespero
Um
Dor
Um
Solitude
Um
Espera pela nova oportunidade de se tornar
Um

Miopia - versão dadaísta

Dizer "te amo" quer dizer biquinho
Um grito é sempre quer dizer
Dizer não adianta quando apertar...
"Ajude-me" "socorro" quando par de óculos é os olhos
Embaçada, um quer colo um choro
Um quer dizer fechar, vindo.
Suspiro está quero um
Quer bem sorriso obrigada
Abrir, esfregar um visão

Ciclo

O que antes era vermelho
Vivo
Intenso
Banhado pela luz do sol
Quente
Brilhante
Aos poucos se torna opaca
Sem viço
Sem cor

O que antes apontava para o alto
Altivo
Confiante
Mirando as estrelas
Vibrante
Radiante
Aos poucos se curva
Sem forças
Sem folhas

Rendendo-se a força invisível
Fraco
Findo
Perde-se entre o que foi um dia
E a esperança de um recomeço
Rendendo-se
Caindo
Sentindo
O fim

Luta


Ela estava agachada, o joelho esquerdo tocando o chão de terra, assim como a mão direita, os cabelos longos formando uma cortina negra sobre seu rosto, respiração acelerada. Olhou para o alto, pingos espessos, negros como sua roupa e seu estado de espírito, começaram a cair sobre seu rosto, como um lamento vindo dos céus. Ao seu redor, gritos de horror, medo e bravura daqueles que ainda lutavam. Ecoavam em sua memória os muitos lamentos que ouvira até então, daqueles que conhecera, que perdera e viria a perder. A visão de um futuro negro pairava sobre ela, como uma aura sugando toda sua vontade. O cansaço que ela sentia não era físico, há muito não mais sentia seu corpo reclamar, mas em sua alma marcada pela perda ao longo do tempo de sua existência. Virou-se e observou o horizonte distante, que começava a anunciar o amanhecer de um novo dia, ponderou a possibilidade de finalmente deixar tudo para trás e esquecer os gritos, as perdas, os incessantes lamentos das pessoas que contavam com ela. Viu no horizonte a possibilidade de um recomeço, livre da dor que carregava dentro do coração, ah como seria reconfortante se livrar de todo um passado de infortúnios. Deu um pequeno passo, fechou os olhos, abriu os braços e deixou-se sentir os pingos chuva lavar-lhe o rosto, o corpo e o coração ferido. E com um breve suspiro jogou-se para trás, num mergulho escuro para o fundo do abismo onde a luta pela vida continuava. As forças? Encontraria dentro de si, trancada a sete chaves no amago de seu ser e daqueles que confiavam nela.

Inquietude

Carrego em mim uma inquietude... bem, não sei dizer se é realmente isso, mas é como se algo ficasse embolado, embotado, embutido dentro mim. Daqueles ímpetos em que você corre, grita, pula, gasta toda a sua energia olhando para o céu à procura de uma resposta, mas ela não vem, assim como o grito, o pulo, os gestos abruptos.... está tudo confinado aqui dentro, bem aqui... onde ninguém vê, nem sente, tampouco ouve, mas eu... ah eu ouço esse grito, abafado, desesperado, buscando uma forma de sair, mesmo estando encurralado entre a vontade e o medo.

Como nas palavras da irmã F, brilhantemente criada por Hilda Hilst.

- Olhei o pássaro que pousou na janela. Tive vontade de ser!

Hourglass



Queria que você me olhasse daquela forma que só você é capaz, me desvendando sem necessidade de explicações. Porque nós somos assim, não acha?! Uma sintonia inacreditável e invejável. 
É, invejável! Já parou para pensar em quantas pessoas queriam ser como nós? Que sabem o que outro está sentindo sem ter que falar nada, cuja energia paira sobre nossos corpos como uma carícia do vento vindo do mar, como a onda que revolve a areia da praia, numa carícia sem fim - ás vezes delicada e às vezes feroz como uma ressaca, batendo, soprando, esburacando a fina camada de areia, mas que depois de tanta zanga, se acalma, se recompõe e volta às carícias, suaves, ternas, como o vento que balança uma flor levando seu perfume pelo ar.
E se somos assim, feitos um para o outro, me explica por que não vejo mais seu sorriso, por que não sinto mais seu perfume, nem seu calor ou seu olhar sobre meu corpo? 
Como a areia que cai de uma ampulheta, nosso tempo se foi? E se burlássemos o tempo e virássemos a ampulheta a fim de termos um pouco mais? Tempo para relembrar o frisson que nosso toque provoca, para sentir o hálito morno do perdão. Peço perdão por te amar tanto, por querer te ter do meu lado a todo momento, por precisar de você assim como preciso da água que hidrata meu corpo. Gostaria apenas que você estendesse sua mão e me tirasse dessa escuridão que se abateu sobre mim, como uma camada grossa e pegajosa que me impede de sorrir, pois só você é capaz disso.

imagem: www.galeriaaberta.com